Norberto Bobbio | Teoria geral da política (1997)

“(…) não há fins na política para sempre estabelecidos, e muito menos um fim que compreenda todos os outros e possa ser considerado o fim da política: os fins da política são tantos quantos forem as metas a que um grupo organizado se propõe, segundo os tempos e as circunstâncias. 
(…) Se o fim da política (e não do homem político maquiavélico) fosse realmente o poder pelo poder, a política não serviria para nada.
(…) Exactamente porque o poder político é distinto do instrumento do qual se serve para alcançar os próprios fins, e esse instrumento é a força física, ele é aquele poder ao qual se apela para solucionar os conflitos cuja não-solução teria como efeito a desagregação do Estado ou da ordem internacional, sendo estes exactamente os conflitos nos quais, postando-se os contendentes um diante do outro, a vita mea é a mors tua.
(…) a injustificação da violência individual repousa em última instância no facto de que é aceite, porque justificada, a violência colectiva. Por outras palavras, a violência individual não é necessária porque basta a violência colectiva: a moral pode assim permitir-se a ser severa para com a violência individual porque repousa sobre a aceitação de uma convivência que se sustenta sobre a prática contínua da violência colectiva.
(…) Essa oposição entre duas diferentes avaliações da nossa acção acompanha-nos pela vida fora, e constitui uma razão fundamental dos conflitos morais que, contrariamente àquilo em que se acredita, não dependem da incompatibilidade de duas normas, mas da diferença dos dois critérios. (…) Não há explicação e justificação mais claras e convincentes da oposição entre moral e política do que a tomada de consciência da existência de duas morais em razão dos dois modos distintos de julgar a mesma acção, segundo se tome o ponto de vista dos princípios ou o ponto de vista dos resultados. (…) Então, mais do que de imoralidade ou amoralidade da política, ou de impoliticidade ou de apoliticidade da moral, seria mais correcto falar de dois universos éticos que se movem segundo critérios distintos de avaliação da acção segundo as diferentes esferas nas quais os indivíduos agem.
(…) uma vez reduzido o direito a produto de um poder capaz de impor regras de conduta coercitivamente, como é possível evitar a redução do direito a poder puro e simples, uma ordem jurídica em ordem exclusivamente fundada sobre o direito do mais forte?