Alice Sant’Anna | Anotações para quando visitar o Japão (2013)


1.
A poesia japonesa raramente usa metáforas. Não se diz que uma mulher é como uma flor. Dizer uma flor já é dizer o que se sente. A superfície revela um significado mais profundo: no escuro talvez não se veja a flor, mas a noite não pode esconder o cheiro da flor.

2.
Se no verão fizesse um dia estranhamente frio, ou uma noite estranhamente longa, isso não seria material para um poema. Não prestaria, porque os poemas deveriam retratar as estações não como elas são de fato, mas como elas são conhecidas, pela sua “essência poética”. Se bem que o verão era a estação que menos rendia poemas (o calor insuportável).

3.
A palavra “outono” (aki) era a mesma para “brilhante”, quando as folhas ganham cores vibrantes, surpreendentes. Durante a era Tenpyo, no entanto, sob a forte influência chinesa, os japoneses reviram seus conceitos – e foi assim que, no século IX, o outono virou sinônimo de frustração e tristeza na poesia japonesa.

4.
“Roxa a minha sombra/ Na grama/ Enquanto caminho pelo campo/ Essa manhã,/ Meus cabelos penteados na brisa da primavera”, escreveu Akiko Yosano em “Tangled Hair”. As mulheres, orgulhosas de seus cabelos, não se envergonhavam de penteá-los em público. Alguns fios fora do lugar, cabelos embaraçados, midaregami: poderia ser sinal de descaso, mas aqui é sinal de beleza, erotismo.

5.
A sombra tem cor?

6.
Na sala de chá, nenhum elemento está ali à toa. As obras de arte, se houver, devem ser escolhidas especialmente para a ocasião. O arranjo de flores não pode ter flores demais (uma só é o ideal). Não se pode repetir a natureza enquadrada na janela. Não há espaço para flores gritantes, e mesmo as roupas não podem ser estridentes. Na sala de chá, só se fala o que se espera, nenhuma palavra a mais, assim como só se ouve uma peça musical de cada vez.

7.
A verdadeira beleza só pode ser descoberta por aquele que mentalmente completa o incompleto. Por isso a sugestão: o jardim é assimétrico, o arranjo de flores recria elementos básicos da natureza, os embrulhos são muitos para que o presente seja revelado só no fim. Raramente aquilo que é especial está diante dos olhos.

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