José Luís Peixoto · A mãe que chovia (2012)


"(...) hoje, sei melhor estas palavras porque sei melhor aquilo que és e, por saber mais sobre ti, mãe, sei mais sobre o mundo, todo este mundo que sempre viste daqui, com esta lonjura enorme, com as coisinhas lá em baixo, montanhas pequeninas, árvores minúsculas, casas habitadas por formigas. Compreendo agora que tinhas de ser assim, mundial, porque os assuntos do teu tamanho, invisíveis ou não, existem em muitos lugares ao mesmo tempo. Mãe, choves o significado do teu nome sobre a terra, choves amor que faz nascer plantas-bebés, sorrisos verdes, que faz crescer saladas e sopas. Mãe, sem ti não existia a palavra verdejante. Há tantas palavras que não existiam sem ti. Mãe, choves palavras sobre o mundo. As palavras que lanças devagar sobre os campos enchem os rios e as barragens, dirigem-se ao mar. Em casa, as pessoas abrem torneiras para encher copos com as palavras que choves. É assim que o teu amor se espalha pelo mundo e, quase sem se notar, o inunda. Porque tudo aquilo que fazes crescer faz crescer também, dás vida que dá vida."

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