José Mauro de Vasconcelos · O meu pé de laranja lima (1968)


História de um meninozinho que um dia descobriu a dor...


"Ela falava com uma voz cansada, cansada. E eu estava com muita pena dela. Mamãe nasceu trabalhando. (...) Quando eu escutei essa história dela fiquei tão triste que prometi que quando fosse poeta e sábio eu ia ler minhas poesias para ela..."

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"Ela sorria contente e sobre a mesa existia o copo vazio. 
Vazio, mas com a rosa da imaginação como ela dissera." 

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"A casa foi-se vestindo de silêncio como se a morte tivesse passos de seda. Não faziam barulho. Todo mundo falava baixo. Mamãe ficava quase toda a noite perto de mim. E eu não me esquecia dele. Das suas risadas. Da sua fala diferente. (...) Não podia deixar de pensar nele. Agora sabia mesmo o que era a dor. Dor não era apanhar de desmaiar. Não era cortar o pé com caco de vidro e levar pontos na farmácia. Dor era aquilo, que doía o coração todinho, que a gente tinha que morrer com ela, sem poder contar para ninguém."


"Agora que descobrira mesmo o que era ternura, em tudo que eu gostava colava ternura." 

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