Agostinho da Silva · As Aproximações (1999)


Política e Santidade

      Tantas e tais coisas se têm cometido naquilo a que se convencionou chamar o campo da política, e que não é, grande parte das vezes, mais do que uma livre carreira deixada a todos os impulsos da ambição ou do desejo de domínio, que hoje, aos olhares da maior parte das pessoas, a política aparece como alguma coisa inteiramente afastada dos caminhos da santidade. É como se, considerando-se o Santo como inteiramente convertido aos planos de Deus, se pusesse o político como inteiramente virado por seu turno para os planos do Demónio. Se um se interessa ou vive na eternidade, outro se prende ou se identifica com o que é puramente temporal. Ideia esta que fez com que, por um lado, quem alguma vez pôs como ideal o ser santo, ideal que, de resto, para cumprirem seu primeiro dever, devia ser comum a todos os homens, quem alguma vez apontou à santidade, sacode das sandálias todo o pó da política e faz o possível por jamais se intrometer no que tange a governo de homens. E, do outro lado, também o político se não importa na maior parte dos casos senão com devoções de carácter puramente exterior. 
      Poderíamos, talvez, olhando a História, pensar que, pelo menos, não são praticamente incompatíveis a santidade e a política. Na Europa, surge-nos um S. Luís que igualmente andou pelos dois campos e num deles em actividade de guerra, as quais dificilmente parecem compatíveis com a santidade; que parecem incompatíveis, digo eu, porque até hoje ninguém provou suficientemente que o sejam, e um texto da altura do Evangelho, ou, para citar um de outros lugares, o Bhagavad-Gita, parecem pô-la por vezes como uma obrigação da santidade. Mas enfim um S. Luís surge, governante exemplar de seu povo e exemplar santo da Igreja. Se corrermos mais a Ocidente, vamos encontrar um Lincoln, que sabemos agora enredado por todo o complexo da luta entre duas economias americanas, a das manu­facturas do Norte e a das plantações do Sul, mas que procede para lá de toda essa trama de interesse humano e se comporta, tanto antes de que a luta rompesse, como durante toda a difícil guerra, como na altura em que já se podia pensar num apaziguamento, com o divino sentido do geral, com a preocupação da fraternidade e com a piedade para os vencidos com que na realidade se comportaria o Santo. E, para os lados do Oriente, cada vez se levanta mais na memória dos homens a figura de um Gandhi, cuja santidade ninguém discutirá, e que foi uma das mais difíceis santidades, porque foi santidade de inteligência, santidade de subordinação absoluta do fazer ao pensar, santidade de batalha e não de graça, e que, no entanto, foi igual­mente um dos mais decididos, indomáveis e obstinados guerreiros da história; porque não vamos supor, iludidos pela doutrina de não-violência, que a vida de Gandhi não foi, quase toda ela, uma contí­nua batalha; batalha com a única arma de que ele e a Índia podiam dispor contra a lei, a força e a economia britânicas, mas batalha, e batalha com vítimas: não só as vítimas da parte de seus voluntários mártires, como as involuntárias vítimas que foram, por exemplo, os tecelões ingleses atingidos pela crise dos têxteis. E, ponto que nos vai importar agora, batalha que ele travava, ao mesmo tempo, em seu coração, contra si próprio.
      Pois é isto exactamente o que fez a essencial grandeza de S. Luís, de Lincoln ou de Gandhi. Que se recusaram a separar um plano do mundo do outro plano do mundo; que se recusaram, com uma exem­plaridade humana pela qual nunca lhes ficaremos suficientemente gratos, porque nada há de mais raro no Universo do que exemplos de não-especialismo, a ser apenas ou políticos ou santos, como provavelmente o tiveram em certo momento da carreira ao inteiro dispor; quiseram ser as duas coisas e o foram; e em lugar de resultar daí, como seria de esperar do que em geral se diz de enciclopedismo e de especialismo, que fossem medíocres num e noutro campo, o que resultou foi que o serem santos os ajudou a serem políticos e o serem políticos lhes deu mil ocasiões de se mostrarem santos. [...] 
      E, quando aparecem as ideias de deixar a política para os políticos, e cuidarem os santos de sua salvação, aí temos de novo a Serpente pronta a tentar perder. O que não quer dizer, evidentemente, que seja a única política possível a de grupos e de partidos; e que seja nessa que tenha de intervir o santo. Muito ao contrário se me afigurariam as coisas; [...] 
       No fim de contas já é tempo de que a atitude a tomar seja uma atitude de conjunto e não uma atitude de fragmentação.[...] Chegou a hora de irmos por um caminho inteiramente diferente e em que percamos muito menos tempo a discutir a teoria, embora ela deva estar conti­nuamente presente ao nosso espírito e embora, sinal supremo dessa atitude de política, estejamos dispostos a substituí-la por outra que se nos demonstre mais verdadeira. [...] 

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