Fausto · Atrás dos tempos outros tempos vêm (1977)


Eu pego na minha viola 
E canto assim esta vida a correr 
Eu sei que é pouco e não consola 
Nem cozido à portuguesa há sequer 
Quem canta sempre se levanta 
Calados é que podemos cair 
Com vinho molha-se a garganta 
Se a lua nova está para subir 


Que atrás dos tempos vêm tempos 
E outros tempos hão-de vir 


Eu sei de histórias verdadeiras 
Umas belas outras tristes de assombrar 
Do marinheiro morto em terra 
Em luta por melhor vida no mar 
Da velha criada despedida 
Que enlouqueceu e se pôs a cantar 
E do trapeiro da avenida 
Mal dormido se pôs a ouvir 


Que atrás dos tempos vêm tempos 
E outros tempos hão-de vir 


Sei de vitórias e derrotas 
Nesta luta que vamos vencer 
Se quem trabalha não se esgota 
Tem seu salário sempre a descer 
Olha a polícia olha o talher 
Olha o preço da vida a subir 
Mas quem mal faz por mal espere 
O tirano fez janela p'ra fugir 


Que atrás dos tempos vêm tempos 
E outros tempos hão-de vir 


Mas esse tempo que há-de vir 
Não se espera como a noite espera o dia 
Nasce da força que transpira 
De braços e pernas em harmonia 
Já basta tanta desgraça 
Que a gente tem no peito a cair 
Não é do povo nem da raça 
Mas do modo como vês o porvir 


Que atrás dos tempos vêm tempos 
E outros tempos hão-de vir 


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