Maria Teresa Horta (prefácio) · Ser ou não ser pelo amor livre (1975)



"A tradição cultural impõe que a mulher decente não realize a sexualidade fora do amor (ou será uma prostituta) e os preconceitos sociais obrigam-na a contrair casamento para ter direito a uma vida sexual. Neste aspecto - como em tantos outros - a sociedade tem sido mais compreensiva com o homem (não haveria de ser, feita pelo homem e para o homem!), a quem reconhece o impulso sexual sem o estímulo do amor e tolera a sua satisfação fora do casamento. Daí o 'mal necessário' da prostituição, uma das maiores nódoas do sistema patriarcal, machista, capitalista. Uma tal organização social exige a exclusividade da posse da mulher como garantia de legitimidade dos filhos. Está em vista a transmissão de bens, a acumulação de riquezas. A prostituição tem permitido ao homem a renovação dos estímulos sexuais, a procura do prazer que não se atreve a experimentar com a mulher legítima, para não correr o risco de despertar nela a sexualidade. O que poderia vir a torná-la numa prostituta... O anseio de amor, com a sexualidade mal conhecida e mal compreendida, provoca, ainda hoje, graves conflitos psicológicos e neuróticos na mulher. Paradoxalmente, ela que tem sido educada para objecto sexual, só agora começa a ter direito ao prazer."

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"A 'liberalização' da sexualidade feminina deve, antes do mais, beneficiar a mulher, e não deve ser mais uma facilidade concedida ao homem."

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"Amor livre, para esta sociedade em que a hipocrisia grassa a todos os níveis, significa liberdade sexual sem amor. É 'sinal verde' para todo o tipo de relações sexuais sem compromisso, uma festa em que se pode participar sem encargos, sem preocupações, que se resolve com um jantar ou um convite para ir lá a casa ouvir o último disco e beber um uísque. Mas o amor livre é outra coisa. Inclui sexualidade, sim, quando for altura disso, se chegar a haver altura para isso, mas como complemento de um relacionamento humano. Pessoalmente, considero o amor livre como a relação amorosa de duas pessoas, emocionalmente adultas, interiormente livres, capazes de permutarem a sua experiência humana, de se darem sem perderem a sua própria personalidade, sem se deixarem absorver pelo outro. Riscarei a palavra livre, porque para mim o amor só pode ser livre em qualquer circunstância, ou não é amor, para acrescentar que este pressupõe o 'empenhamento' no outro, na realização do outro como pessoa humana, sem cálculos, mesmo o da estabilidade ou o do futuro. Assumir o outro, sem egoísmo, é o que de mais belo há no amor."

― Antónia de Sousa